O que o futuro reserva para os servidores públicos no Brasil?

9 de março de 2022 Por Letícia Piccolotto

No Brasil, até fevereiro de 2021, segundo dados da Pnad Contínua*, 11,9 milhões de pessoas se declararam empregados do setor público.

A história e tradição do serviço público, desde o seu início no século XIX até meados do início dos anos 2000, levou a uma percepção comum de que as instituições governamentais eram fontes de estabilidade e prosperidade econômica. O serviço público no país também foi percebido como um símbolo de modernização, profissionalismo e desenvolvimento contínuo.

Essa visão sofreu mudanças na última década, à medida que a sociedade brasileira passou a questionar a eficácia e a qualidade das políticas públicas, assim como rever o papel dos servidores públicos para a manutenção das instituições e seu desenvolvimento.

O ano de 2020, no entanto, trouxe uma mudança nesse movimento. A pandemia do COVID-19 marcou a importância dos servidores públicos, pois é seguro dizer que sem o trabalho árduo de homens e mulheres em diversas funções da gestão pública, especialmente no setor da saúde, a pandemia teria sido ainda mais difícil para toda a população brasileira.

A crise que vivemos também evidenciou o quanto não estávamos preparados para ela. Não é absurdo afirmar que fomos todos pegos de surpresa. E os servidores públicos foram diretamente impactados.

A maioria dessas transformações esteve relacionada à digitalização de serviços. Um dos casos mais representativos é a implantação do Auxílio Emergencial, um programa de renda implementado pelo governo federal e que, no auge de sua implementação, atendeu a 60% da população – número equivalente a 126 milhões de pessoas.**

Essa política pública única e inédita expôs a necessidade de mudanças relevantes, desde o desafio da identificação digital até o reconhecimento de que parte considerável de nossa população está excluída financeiramente. No entanto, sua implementação foi cercada por amplo debate e limitações técnicas, representando um exemplo claro de que o impacto da crise não havia sido previsto e de como o exercício antecipatório é fundamental para o governo.

É exatamente isso o que defende o projeto “Servidor Público do Futuro“. Liderado pela Fundação Brava, a Fundação Lemann, o Instituto Humanize e a Republica.org, e contando com o apoio do Institute for the Future (IFTF), organização de referência localizada no Vale do Silício (EUA), a pesquisa produziu prognósticos de futuro para o serviço público no Brasil.

O projeto apresenta um conjunto de 8 diferentes forecasts para o futuro do serviço público e servidores no Brasil para a próxima década. Para desenvolver o estudo, o Institute for the Future (IFTF) utilizou métodos de antecipação estratégica desenvolvidos ao longo de décadas de experiência em pesquisa, combinados com workshops e entrevistas realizadas com os principais especialistas globais do setor público, filantropia, academia, tecnologia e empresas privadas.

Esses prognósticos não são previsões sobre o futuro. Trata-se de um modelo teórico que busca examinar mudanças presentes para traçar tendências futuras em diferentes áreas da sociedade, a partir de sinais de futuro encontrados e analisados por pesquisadores do IFTF.

Espera-se que as chances coletivas de tomar melhores decisões possam ser ampliadas à medida que esse exercício de antecipação estratégica possa ser incorporado na tomada de decisão das lideranças responsáveis por pensar o futuro do serviço público e de seus servidores no Brasil.

O que esperar do futuro dos servidores públicos?

Tendo como horizonte o ano de 2031, o estudo aponta 8 prognósticos para o futuro do serviço e dos servidores públicos no Brasil, sendo que a tecnologia é a principal força de mudança em pelo menos quatro deles. E é sobre esses quatro prognósticos que falamos agora. 

Primeiro, os servidores serão chamados a terem um conjunto diverso de novas habilidades e competências. Conhecimentos técnicos continuam sendo relevantes, mas as competências socioemocionais e humanas passam a ser centrais. Em um cenário em que novos desafios, demandas e tecnologias surgem a cada momento, os servidores públicos serão reconhecidos como “generalistas flexíveis” e especialistas na solução de problemas complexos.

O segundo prognóstico aponta que as emoções dos cidadãos passam a representar um importante elemento de decisão para os governos, e que os servidores públicos serão responsáveis por monitorar as diferentes reações frente a políticas públicas e novas leis. De acordo com esse prognóstico, conhecer como determinadas medidas impactam as pessoas passa a ser fundamental para mensurar as chances de sucesso de uma determinada ação do governo.

Quanto ao terceiro prognóstico, a tecnologia deve fazer com que a transparência governamental seja a regra e o sigilo se torne sempre uma exceção. Com isso, cidadãos e atores privados serão como “supervisores independentes” das ações governamentais, utilizando a tecnologia para acompanhar ações, o orçamento público e todas as medidas implementadas pelos governos. Os servidores públicos deverão assumir novos papéis para garantir a transparência, muitos deles relacionados ao diálogo direto com os cidadãos, mas também com a construção de ferramentas tecnológicas que permitam o compartilhamento de informações sobre a atuação governamental.

Por fim, o futuro dos servidores públicos deve ser marcado pela automação. Inteligência artificial, algoritmos, machine learning e todas as suas soluções serão responsáveis por conduzir grande parte das ações governamentais, fazendo com que novas funções sejam criadas, todas elas em simbiose e colaboração com as novas tecnologias.

E o que fazer?

Os prognósticos apontam que a tecnologia é uma realidade em nossas vidas e sua presença, relevância e influência serão ainda maiores com o passar do tempo. Em outras palavras, não há mais volta, à medida que a tecnologia e seu impacto crescem a cada dia e se tornam exponencialmente relevantes para o avanço de nossa sociedade.

Mas o aspecto analógico da transformação digital segue como algo fundamental. Isto é, sem investir na formação de pessoas, sem promover uma transformação cultural do setor público para que ele seja mais aberto à inovação e sem rever processos atuais para combater a e-burocracia —a transposição das distorções da burocracia para o ambiente digital— não conseguiremos usufruir de todos os benefícios que a tecnologia pode nos trazer.

Temos uma fotografia de como pode ser o futuro do serviço e dos servidores públicos no Brasil na próxima década. Não precisamos temê-la, mas devemos nos preparar para a sua chegada e para as transformações que surgem com ela.

Você pode acessar a versão completa do estudo aqui: Servidor do Futuro (brava.org.br)

* A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD é uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em uma amostra de domicílios brasileiros que, como múltiplos propósitos, investiga diversas características socioeconômicas da sociedade, como população, educação, trabalho, renda, moradia, migração, saúde, nutrição, etc., entre outros temas que são incluídos na pesquisa de acordo com as informações necessárias para o país. A pesquisa é realizada em todas as regiões do Brasil. Mais informações disponíveis em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/habitacao/17270-pnad-continua.html

** Confira: https://www.gov.br/pt-br/noticias/financas-impostos-e-gestao-publica/600-dias/arquivos-de-600-dias/cidadania-auxilio-emergencial-chega-a-60-da-populacao-brasileira

REFERÊNCIAS:

Barcia J. & Dunagan J. & Howard S. & Lipsett I. (2021). The Next Generation of Civil Service in Brazil: Forecasts and Toolkit. Disponível em: http://brava.org.br/servidor-do-futuro.html